Dislexia: o que é, sinais em cada idade e como é a avaliação
Por Mariana Borges, psicóloga e neuropsicóloga, CRP 09/9037

Resposta curta
Dislexia é um transtorno específico da aprendizagem, de origem neurobiológica, que dificulta a leitura precisa e fluente de palavras e a escrita, mesmo com ensino adequado. Não tem relação com inteligência nem com preguiça. Os primeiros sinais podem aparecer antes da alfabetização, e o diagnóstico é feito por avaliação multiprofissional, em geral depois de cerca de dois anos de escolarização.
Dislexia é um transtorno específico da aprendizagem que dificulta ler com precisão e fluência e escrever corretamente, mesmo quando a criança tem bom ensino, boa visão e boa audição. Não é falta de inteligência, nem de esforço, nem de interesse. Este artigo explica o que é a dislexia, quais sinais aparecem em cada idade e como é a avaliação.
O que é dislexia
Segundo o Instituto ABCD, a dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica. Ela se caracteriza pela dificuldade no reconhecimento preciso e fluente das palavras, na decodificação (transformar letras em sons) e na soletração. Em geral, está ligada a uma dificuldade no processamento fonológico, que é a capacidade de perceber e manipular os sons da língua.
A International Dyslexia Association atualizou a sua definição em 2025. Ela descreve a dislexia como uma dificuldade na leitura de palavras e na soletração, em precisão ou velocidade, que aparece em diferentes graus, persiste mesmo com ensino eficaz e tem causas genéticas, neurobiológicas e ambientais.
No manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5-TR), a dislexia aparece como transtorno específico da aprendizagem com prejuízo na leitura.
Dislexia tem relação com inteligência?
Não. A pessoa com dislexia pode ter inteligência na média ou acima dela e ir muito bem em atividades que não dependem da leitura. É comum que entenda bem um texto quando ele é lido em voz alta e tenha dificuldade quando precisa ler sozinha.
Por isso, chamar a criança de preguiçosa ou distraída costuma ser injusto: muitas vezes ela se esforça mais que os colegas e, mesmo assim, a leitura não flui.
Sinais de dislexia em cada idade
Os sinais variam com a idade. Segundo o Instituto ABCD, alguns sinais de risco podem aparecer antes da alfabetização. Alguns exemplos que costumam ser observados:
Antes da alfabetização (por volta de 4 e 5 anos)
- atraso na fala
- dificuldade com rimas e com brincadeiras de sons
- dificuldade para aprender o nome das letras, das cores e dos números
Na alfabetização
- dificuldade persistente para associar letras e sons
- leitura muito lenta, silabada, com muitos erros
- dificuldade para escrever palavras que já foram muito praticadas
No ensino fundamental
- leitura lenta e cansativa, que atrapalha a compreensão
- evita ler em voz alta
- erros de ortografia que se repetem mesmo com correção
- demora muito mais que os colegas nas provas
Na vida adulta
- leitura lenta e com esforço
- dificuldade com ortografia
- preferência por ouvir em vez de ler

Nenhum desses sinais, sozinho, indica dislexia. Trocar letras parecidas, como b e d, por exemplo, é comum no começo da alfabetização. O que chama atenção é a dificuldade que persiste, mesmo com ensino adequado.
Dislexia e TDAH: qual a relação?
Dislexia e TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) são condições diferentes, mas aparecem juntas com frequência. Um estudo publicado em 2019 reúne estimativas de que entre 25% e 40% das pessoas com uma dessas condições também têm a outra. As duas costumam compartilhar dificuldades em áreas como memória de trabalho, atenção e velocidade de processamento.
Por isso a avaliação precisa olhar para as duas possibilidades. Tratar só uma delas pode deixar a outra sem apoio. O artigo sobre funções executivas explica algumas dessas habilidades.
Quem diagnostica dislexia e como é a avaliação
A avaliação da dislexia é multiprofissional. Segundo o Instituto ABCD, ela costuma envolver psicólogo ou neuropsicólogo, fonoaudiólogo e médico, e às vezes psicopedagogo, com informações da família e da escola.
O diagnóstico formal costuma ser feito depois de cerca de dois anos de escolarização. Antes disso, quando há sinais de risco, já vale começar a estimular a criança, sem esperar o diagnóstico.
Na avaliação neuropsicológica, investigo:
- leitura e escrita, com tarefas padronizadas para a idade
- consciência fonológica, que é a capacidade de perceber e manipular os sons das palavras
- memória de trabalho, atenção e velocidade de processamento
- funcionamento intelectual geral, para descartar outras explicações para a dificuldade

Ao final, a família recebe o laudo e uma devolutiva, com orientações para casa e para a escola. O laudo também pode orientar o trabalho de outros profissionais, como o fonoaudiólogo.
O que a lei diz sobre dislexia na escola
A Lei 14.254/2021 prevê que o poder público mantenha um programa de acompanhamento integral para alunos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem. O programa inclui identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico, apoio educacional na escola e apoio terapêutico na rede de saúde. A lei vale para escolas públicas e privadas.
Já a Lei 13.085/2015 instituiu o Dia Nacional de Atenção à Dislexia, em 16 de novembro.
Dislexia tem tratamento?
A dislexia não tem cura e não existe remédio para ela. O que ajuda é a intervenção especializada, como o trabalho fonoaudiológico e psicopedagógico com leitura e escrita, junto com adaptações na escola, como mais tempo nas provas e leitura das questões em voz alta, conforme a necessidade de cada aluno.
Também é importante saber o que não tem base científica, como lentes coloridas ou óculos especiais como tratamento para a dislexia.
Se a escola comentou dificuldades de leitura do seu filho, o artigo A escola pediu uma avaliação. E agora? mostra os primeiros passos. E, se quiser conversar sobre o caso, é só me chamar pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Dislexia tem cura?
Não. A dislexia acompanha a pessoa ao longo da vida. Com identificação e apoio adequados, a pessoa pode desenvolver estratégias e seguir aprendendo. Não existe remédio para dislexia.
Dislexia é deficiência?
Dislexia é um transtorno específico da aprendizagem e não tem relação com deficiência intelectual. Na escola, o direito ao acompanhamento está previsto na Lei 14.254/2021. Para direitos em outras áreas, vale consultar a legislação específica.
Com quantos anos dá para diagnosticar dislexia?
Sinais de risco podem aparecer aos 4 ou 5 anos, mas o diagnóstico formal costuma ser feito depois de cerca de dois anos de escolarização, quando dá para ver se a dificuldade persiste mesmo com ensino adequado.
Quem diagnostica dislexia?
A avaliação é multiprofissional. Costuma envolver fonoaudiólogo, neuropsicólogo e médico, com informações da família e da escola.
Trocar letras é sinal de dislexia?
Nem sempre. Trocar letras como b e d é comum no começo da alfabetização. O que chama atenção é a dificuldade persistente para ler com precisão e fluência, que não melhora com o ensino.
Adulto pode ter dislexia?
Sim. A dislexia não desaparece com a idade. Às vezes ela só é identificada na vida adulta, quando a pessoa percebe que lê devagar e com esforço desde sempre.
Fontes
- Instituto ABCD. O que é dislexia
- Instituto ABCD. Perguntas e respostas sobre dislexia
- International Dyslexia Association. Definição de dislexia, 2025
- Lei 14.254/2021: acompanhamento integral de educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem
- Lei 13.085/2015: Dia Nacional de Atenção à Dislexia
- McGrath e Stoodley. Are there shared neural correlates between dyslexia and ADHD? Journal of Neurodevelopmental Disorders, 2019